Redes cresceram quase 30% em três anos, mas a permanência das lojas depende de capital, suporte e gestão
O mercado de franquias ópticas encerrou o primeiro trimestre de 2026 com 35 redes e 4.248 operações. Três anos antes, eram 27 redes e 3.871 unidades. Os dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF) representam altas de quase 30% nas marcas e 10% nas operações, mas não mostram quantas lojas permanecerão abertas.
Segundo Gustavo Freitas, diretor internacional da ABF, o envelhecimento da população, a exposição às telas e a preocupação com a saúde visual mantêm a demanda aquecida. Esse potencial de consumo, porém, não garante o resultado de cada loja.
O Instituto Visão Solidária (IVS) mostra a velocidade que uma rede pode alcançar. Tony Cozendey, proprietário da franqueadora, afirma que começou a comercializar franquias em novembro de 2022, quando tinha sete lojas próprias. Em setembro de 2026, eram 250 unidades em operação. Segundo ele, a marca está presente em todo o país, exceto no Amapá e em Roraima.

O número de aberturas, sozinho, não mede a saúde da expansão. A empresária e franqueada das Óticas Carol Keila Taira observa: “Eu sei que fecharam muitas também”. A fala expressa sua percepção pessoal. A ABF não forneceu dados sobre fechamentos, faturamento ou repasses de franquias ópticas.
Para Fernando Cardoso, consultor e diretor educacional do IVS, é preciso observar o resultado das lojas existentes. Unidades próximas da mesma marca podem disputar clientes. Repasses, quando a operação é transferida para outro proprietário, também merecem atenção se ocorrem antes de 24 meses.
Franquia óptica ou loja própria?
A franquia pode dar acesso a uma marca estabelecida, treinamento, campanhas e maior poder de negociação. A loja própria oferece mais autonomia, mas exige que o empresário organize gestão, fornecedores, marketing e capacitação. A escolha depende da experiência, do capital e do perfil do empreendedor.
O suporte ganha importância quando o investidor não conhece o setor. No IVS, a maioria dos franqueados chega sem experiência no mercado óptico, de acordo com Cozendey. Ele afirma que a franqueadora deve oferecer formação, acompanhamento contínuo e uma equipe compatível com o crescimento da rede.
Em troca do suporte e do uso da marca, o franqueado segue as regras da rede. Taira lembra que atendimento, procedimentos técnicos e indicadores precisam ser padronizados. O mix de armações e a comunicação, contudo, devem considerar hábitos, poder de compra e sazonalidade regional.
A Circular de Oferta de Franquia (COF), documento que reúne as condições do negócio, e o contrato devem detalhar o suporte e as responsabilidades de cada parte. Mesmo com uma marca conhecida, o resultado depende da operação local. Cardoso resume: “Marca leva o cliente até a porta. Marca não fecha venda”.
Capital de giro e contrato da franquia óptica
No varejo óptico, as vendas parceladas adiam o recebimento, enquanto as despesas vencem todos os meses. Cardoso estima que a maturação leve de seis a 12 meses e alerta: “O negócio não morre de investimento errado, morre de fôlego curto”.
No IVS, Cozendey informa investimento a partir de R$ 200 mil para uma loja pequena e entre R$ 250 mil e R$ 260 mil para uma unidade média. Segundo a franqueadora, o faturamento médio mensal era de R$ 110 mil em setembro de 2026. O número não foi verificado de forma independente.
Cardoso recomenda analisar a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), relatório que reúne receitas, custos e resultado, e solicitar o faturamento médio e o mediano. Equipamentos, seguros, royalties, publicidade e pró-labore também devem entrar no planejamento.
Pela Lei nº 13.966/2019, a COF deve ser entregue pelo menos dez dias antes da assinatura de contrato ou pré-contrato ou do pagamento de qualquer taxa à franqueadora. O documento deve informar investimento, taxas, território, fornecedores obrigatórios, suporte, treinamento e multas. Também deve trazer a relação dos franqueados e daqueles que deixaram a rede nos últimos 24 meses.
Cardoso recomenda usar esses contatos para conferir o que foi apresentado durante a venda. O candidato pode procurar operadores não indicados pela franqueadora, inclusive os desligados, e visitar lojas em dias comuns. Deve ainda investigar o suporte, a taxa de marketing e o histórico de repasses e fechamentos.
As regras de fornecimento afetam o estoque e o caixa. Cozendey afirma que o IVS trabalha com fornecedores homologados. Alguns itens podem ser comprados fora da rede; outros devem vir de parceiros definidos. Essas obrigações precisam constar da COF.
A operação também depende de pessoas. Taira relata que empresários desistiram de abrir lojas por falta de gerentes e supervisores preparados. Treinamento, suporte técnico e acompanhamento de campo devem estar previstos nos documentos e confirmados com quem já trabalha na rede.
O crescimento mostra que há demanda pelo modelo, mas sua consistência será medida pela capacidade das lojas de permanecer abertas. Comparar projeções com resultados reais, ouvir franqueados e ex-franqueados e dimensionar o capital ajuda o investidor a avaliar se a operação terá condições de atravessar o período de maturação.
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