As transformações do comportamento de consumo e o avanço das tendências globais de moda vêm ampliando o impacto comercial das coleções no setor óptico. Em um mercado cada vez mais atento à experiência, identidade visual e personalização, acompanhar movimentos da moda deixou de ser apenas uma questão estética para se tornar uma estratégia de posicionamento e rentabilidade.
Nesse cenário, equilíbrio entre inovação, aceitação comercial e usabilidade aparece como um dos principais desafios das marcas e profissionais do segmento.
Para Allyne Marissol, gerente de Marketing da Avodah, as próximas temporadas devem consolidar o protagonismo das armações robustas, de traços marcantes e maior presença visual. “Com proporções exageradas, traços marcantes e presença visual, essas peças transformam os óculos em um verdadeiro acessório de moda.”
Segundo ela, o acetato seguirá como um dos materiais mais relevantes justamente pela capacidade de unir apelo estético e versatilidade comercial. “O acetato aparece como um dos protagonistas por permitir formatos mais encorpados, cores intensas, transparências e efeitos sofisticados, como o clássico demi/tartaruga”, explica.

Embora os tons vibrantes avancem nas coleções, Allyne destaca que o consumidor ainda demonstra preferência por escolhas consideradas mais seguras. Os óculos são uma peça de uso frequente, muitas vezes diária, e precisam combinar com diferentes ocasiões, roupas e estilos.
Na avaliação da gerente, é justamente nesse ponto que moda e desempenho comercial se encontram. “A novidade atrai o olhar e gera desejo, enquanto a usabilidade garante que o consumidor consiga incorporar aquele produto ao seu estilo de vida”, afirma. Ela também ressalta a força permanente dos modelos clássicos no varejo. “O protagonista continua sendo o clássico demi, também conhecido como tartaruga: elegante, atemporal e extremamente comercial.”
As influências internacionais também vêm acelerando a renovação estética do mercado óptico. Para a designer lunetier Giu Pachá, consumidores e marcas acompanham rapidamente aquilo que ganha espaço fora do país. “Com a facilidade de acesso à informação e às feiras internacionais, consumidores e marcas identificam rapidamente o que está em alta fora do país.”

Giu comenta que, no segmento sob medida, essa movimentação chega diretamente ao processo criativo. O cliente já sabe e pede algum desenho que esteja em alta como base para a criação personalizada, porém, acompanhar tendências não significa desenvolver produtos sem direcionamento comercial. “Cada público tem uma aceitação maior ou menor. Não se pode criar determinado modelo acreditando que vai atingir a todos. Entender nichos e perfis específicos tornou-se decisivo para o sucesso das coleções.”
A designer também chama atenção para o crescimento da busca por exclusividade e experiência personalizada, movimento que vem agregando valor ao produto óptico. “A personalização deixou de ser apenas um diferencial estético e passou a integrar a percepção de valor do consumidor.”
Além da estética, o encaixe e a representação da identidade individual aparecem como fatores importantes para fidelização e satisfação do cliente. “Os óculos sob medida permitem adaptação de tamanho e principalmente a representação da personalidade e estilo do cliente”, diz Giu.
Para Carol Waltrick, diretora de Design de Produto da EssilorLuxottica na América Latina, a adaptação das tendências globais ao perfil do consumidor brasileiro tornou-se parte estratégica do desenvolvimento das coleções no setor óptico. “O Brasil tem uma relação muito própria com moda, comportamento e autoexpressão, e isso se reflete diretamente no design de óculos. Quando observamos uma tendência global surgindo em centros como Milão, Paris ou Nova York, nosso trabalho não é simplesmente replicá-la localmente, mas entender como ela conversa com o estilo de vida, a diversidade estética e até o clima brasileiro.”

Carol cita que é feito um processo de adaptação do design para as preferências do público brasileiro, selecionando paletas, proporções, materiais e acabamentos que atendem às escolhas locais sem perder a essência global da marca, como por exemplo, as coleções desenvolvidas especialmente para o mercado nacional, como a linha temática da Ray-Ban inspirada no Carnaval brasileiro. Atualmente, a marca também aposta em edições comemorativas e sazonais, como a coleção lançada pelos 90 anos do modelo Aviator.
Além da estética, o desenvolvimento de uma armação envolve uma série de critérios técnicos ligados ao conforto e à ergonomia. “Consideramos fatores como proporção facial, largura da ponte nasal, encaixe nas têmporas, distância pupilar e ergonomia. No Brasil, isso se torna ainda mais relevante porque temos uma pluralidade de traços e formatos de rosto”, ressalta Carol.
Na avaliação da executiva, a velocidade da moda também mudou a dinâmica de desenvolvimento das coleções. “Hoje, a moda acontece de forma muito rápida e o consumidor está cada vez mais informado e conectado. Nosso desafio é antecipar tendências de um jeito que o consumidor aprecie e adote”, diz Carol, completando que o intervalo entre o surgimento de uma tendência e sua chegada ao mercado óptico pode variar entre seis meses e um ano, dependendo da complexidade do projeto.
Entre as tendências que vêm ganhando espaço nas coleções atuais, impulsionadas por uma busca maior por autenticidade e expressão pessoal, ela destaca silhuetas orgânicas, detalhes inspirados em joalheria, releituras contemporâneas dos modelos aviador, formatos gatinho mais arquitetônicos e uma estética intelectual e minimalista. Nas cores, predominam tons escuros e elegantes, paletas suaves, referências minerais, lentes coloridas como elemento de identidade e tonalidades quentes, como o mostarda.
Para Gislene Carvalho, especialista em visagismo e comunicação verbo visual, a relação entre moda e consumo no setor óptico passa cada vez mais pela construção de imagem e comunicação pessoal. “Eu não apresento óculos modernos apenas como tendência. Eu apresento como linguagem, identidade e comunicação. Os óculos deixaram de ocupar apenas uma função estética ou funcional. Eles comunicam personalidade, posicionamento, intenção e presença antes mesmo da fala.”

Na avaliação da especialista, o visagismo também contribui para ampliar a aceitação de modelos mais ousados, criando conexão entre produto e consumidor. “Quando existe coerência entre imagem, comportamento e comunicação visual, a resistência tende a diminuir. Muitas vezes, o modelo considerado ousado apenas revela uma versão mais autêntica e alinhada da própria pessoa”, ressalta.
Gislene diz que a satisfação do consumidor está diretamente ligada ao alinhamento entre tendência e identidade individual. “A questão não está na moda, mas na coerência da imagem. Quando personalidade, comportamento e comunicação visual se conectam, o resultado vai além da estética e a pessoa se sente vista de maneira mais autêntica”, finaliza.
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