Redes sociais aceleram tendências, enquanto preço, estilo e referências coletivas pesam na escolha das armações
O cliente jovem chega à ótica com uma imagem salva no celular. Quer experimentar um formato que viu no TikTok, no Instagram ou no Pinterest. A cena resume uma tensão no consumo de óculos pela Geração Z: a armação funciona como expressão pessoal, mas a escolha muitas vezes parte de estilos já validados por influenciadores e pelo próprio grupo.
Isabela Bim, especialista em eyewear, tendências e comportamento de consumo, acompanha esse comportamento entre jovens da Geração Z. O Pew Research Center usa 1997 a 2012 como intervalo para esse grupo, hoje com cerca de 13 a 29 anos.
Para Isabela, os óculos entraram de vez na composição do visual. Ao comparar a armação a outros elementos de estilo, ela afirma: “Óculos deixaram de ser só correção visual para virar acessório de moda, no mesmo patamar de bolsa, tênis, joia e até relógio.”
Usar os óculos para expressar identidade não significa, necessariamente, procurar algo exclusivo. Influenciadores e criadores de conteúdo também validam estilos e podem levar o público a buscar modelos parecidos ou até iguais aos que já viram. Isabela aponta o pertencimento como parte dessa escolha: “Não é tanto uma busca por algo autoral, é mais uma vontade de pertencer a um estilo que já está validado.”
A retomada de referências antigas reforça essa dinâmica. Os óculos máscara, maiores e de lentes amplas, dividem espaço com modelos pequenos inspirados nos anos 1990 e 2000.
As telas formam o repertório antes da loja
TikTok, Instagram e Pinterest alimentam esse repertório. Parte da pesquisa acontece antes mesmo da visita à loja. Isabela afirma: “Boa parte da decisão de compra hoje começa numa tela, não na loja.”
Na experiência da especialista é comum o jovem chegar com formato ou estética já em mente. Oversized e geométricos convivem com armações ovais pequenas. Outra referência é o Old Money, ligado a uma imagem clássica, discreta e sofisticada.
O efeito pode aparecer rapidamente no balcão. Segundo Isabela, um post, show ou outro conteúdo pode aumentar em poucos dias a procura por determinado formato, como já acontece na moda e na beleza.
Francesca Ciafrè, diretora de Marketing da EssilorLuxottica no Brasil, também atribui às redes sociais e aos criadores de conteúdo um papel importante na descoberta de tendências e na construção da identidade visual. Sobre o lugar dos óculos entre as novas gerações, ela afirma: “Eles não são vistos apenas por sua funcionalidade, mas também como um acessório capaz de comunicar estilo, personalidade e pertencimento.”
Uma dissertação de mestrado de Adriana Dias Candido, defendida em 2022 na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, ajuda a contextualizar essa passagem entre telas e loja física Com 727 consumidoras de vestuário, a pesquisa encontrou maior uso dos canais on-line pelas gerações mais jovens em praticamente todas as etapas do processo de compra. Nas fases de avaliação à devolução, porém, a loja física foi mais utilizada pela Geração Z, inclusive na compra. O estudo trata de vestuário feminino, e não do mercado óptico.
Vontade de variar esbarra no preço
A experimentação é outro traço observado por Isabela. A Geração Z testa mais e pode se interessar por armações diferentes conforme a ocasião ou a imagem que quer construir. Essa vontade, porém, encontra uma barreira concreta: o preço.
Parte dos jovens procura alternativas mais acessíveis, incluindo marcas nacionais com estética semelhante à de grifes conhecidas. Isabela relaciona variedade e poder de compra: “Quem tem mais de um óculos nessa idade geralmente investiu em peças mais acessíveis justamente para poder ter variedade.”
Francesca vê espaço para propostas diversas, desde silhuetas orgânicas e releituras dos aviadores a formatos gatinho e linhas minimalistas. Nas cores, convivem tons escuros, paletas suaves e opções mais marcantes.
Como conversar com esse consumidor
Isabela avalia que marcas e óticas precisam entender onde esse público circula, o que consome e quais conteúdos fazem parte de seu repertório antes de tentar reproduzir sua linguagem. Ela aponta caminhos concretos: bastidores, pessoas reais, clientes usando os produtos e conteúdos que mostrem o resultado dos óculos no dia a dia.
A tentativa de acompanhar qualquer tendência da internet pode soar artificial. Isabela cita um erro recorrente: “O maior erro é entrar em trend que não tem nada a ver com a marca, tipo dancinha genérica só para tentar engajar”, diz.
Para o varejo óptico, a escolha pode começar antes de o consumidor chegar ao expositor. Ele entra na loja com referências, expectativas e uma imagem que deseja construir ou reproduzir. Entender o que há por trás dessa referência, como vontade de experimentar, desejo de pertencimento, orçamento ou estilo, passa a fazer parte da conversa de venda.
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