Consumidor mais informado, a busca por exclusividade e a valorização do design ajudam a explicar a expansão do segmento premium
O mercado de luxo atravessa uma transformação que não se resume ao aumento do consumo. A forma de escolher, avaliar e atribuir valor aos produtos mudou, deslocando parte da atenção antes concentrada na exposição da marca para atributos como exclusividade, origem, qualidade, design, experiência de compra e identificação pessoal.
Para Carlos Ferreirinha, fundador e presidente da MCF Consultoria, houve crescimento nos últimos anos, acompanhado de uma mudança mais profunda na própria atividade. “O mercado de luxo não apenas cresceu. Amadureceu, sofisticou-se e ficou ainda mais exigente. O consumidor passou a procurar significado, repertório, coerência e excelência na entrega, além de compreender melhor os elementos que sustentam o valor de um produto.”

Kako Breternitz, CEO da Art Speks e especialista em curadoria de design, compartilha dessa avaliação. “O mercado apresentou um crescimento expressivo e resiliente, mesmo diante de períodos de instabilidade econômica. A mudança também aparece naquilo que desperta o interesse do público, como exclusividade, autenticidade, história e pertencimento ganharam importância na decisão de compra.”

Dentro desse processo, os óculos ocupam uma posição singular. Além da função relacionada à visão ou à proteção, passaram a ter participação relevante na construção da identidade e do estilo.
Breternitz atribui parte do crescimento do eyewear de luxo justamente a essa transformação. Em sua avaliação, os óculos deixaram de ser percebidos somente por sua necessidade funcional e se consolidaram como acessórios de moda capazes de expressar identidade e personalidade. Durabilidade, materiais nobres, tecnologia de fabricação e design também passaram a pesar na percepção do produto premium.
Ferreirinha chama atenção para outra característica decisiva, os óculos estão no rosto e, portanto, em uma das áreas mais visíveis da imagem pessoal. Para ele, poucos produtos conseguem comunicar tão imediatamente estilo, personalidade, sofisticação e diferenciação. Essa combinação ajuda a explicar por que a categoria preserva relevância mesmo quando o ambiente econômico leva o consumidor a rever prioridades.
Nessas circunstâncias, a compra pode se tornar menos frequente ou ser adiada, mas determinados produtos continuam despertando interesse por reunir valor simbólico e uso recorrente. No caso dos óculos, Ferreirinha identifica uma combinação particularmente favorável: desejo, estética, técnica e, para muitos consumidores, saúde visual.
Uma porta de entrada para o luxo
Outro componente desse mercado é o chamado luxo acessível. Ferreirinha ressalta que essa modalidade não é nova e sempre teve importância dentro da atividade. Categorias como beleza e acessórios, entre eles os óculos, permitem que um universo mais amplo de consumidores estabeleça seu primeiro contato com marcas de maior valor percebido.
No varejo óptico, a consequência é relevante. “Um par de óculos pode ser a primeira relação de muitos consumidores com uma marca de luxo, por isso, é inadequado tratar o produto como uma categoria menor. Quando trabalhada de maneira consistente, essa entrada pode ampliar o vínculo do cliente com a marca e desenvolver seu interesse por aquele universo”, diz Ferreirinha.
Isso também ajuda a compreender por que preço e valor não ocupam necessariamente o mesmo lugar na decisão. “O cliente precisa entender o que sustenta o preço cobrado, ou seja, marca, qualidade das lentes, design, acabamento, serviço, recomendação e experiência de compra fazem parte dessa construção. Quando a venda se concentra exclusivamente no preço, a percepção da categoria é reduzida”, ressalta Ferreirinha.
Exclusividade em vez de produção em massa
Breternitz identifica outra resposta das marcas ao avanço da procura por produtos premium. No universo das grifes independentes e de design em que atua, o movimento não estaria direcionado à produção em massa, mas ao reforço da exclusividade.
“Marcas produzidas na Itália têm recorrido a acetatos, processos artesanais e colaborações com a moda e o street style, preservando controle sobre qualidade e distribuição. A resposta do verdadeiro premium é entregar o inesperado e o autêntico”, afirma Breternitz.
Essa diferenciação aparece também na construção da peça. Breternitz cita origem da produção, componentes de alta qualidade, ergonomia, dobradiças, acabamento e durabilidade entre os elementos capazes de distinguir um produto de design de opções voltadas ao mercado de massa. “O luxo óptico se vê no detalhe do polimento e no peso do equilíbrio da peça no rosto e, finalmente, em sua durabilidade.”
Um consumidor que sabe o que procura
A expansão do segmento vem acompanhada de um consumidor com maior acesso à informação e capacidade de comparação.
Breternitz observa influência das novas gerações, do street style, da moda e de preocupações relacionadas à origem e à produção dos itens. “Esse consumidor procura produtos capazes de dialogar com seu estilo de vida e expressar sua identidade, em vez de simplesmente repetir aquilo que todos estão usando”.
Ferreirinha também descreve um brasileiro que pesquisa, compara, acompanha tendências, reconhece marcas e valoriza atendimento. “O amadurecimento do consumidor precisa encontrar correspondência no varejo. O desafio está em oferecer uma experiência compatível com o posicionamento pretendido pela marca”.
Isso envolve curadoria, atendimento consultivo, ambientação, linguagem, pós-venda, conhecimento de produto e capacidade de transformar estilo em recomendação. Em outras palavras, colocar uma armação de luxo na vitrine não basta para transformar uma óptica em referência nesse mercado.
Brasil entra no radar do eyewear independente
Na avaliação de Breternitz, o Brasil apresenta potencial para a expansão das marcas independentes. Ele associa essa oportunidade à relação do consumidor brasileiro com os óculos de sol e de grau, além da proximidade cultural com moda e design. À frente da Art Speks, cita a experiência da empresa com marcas internacionais como Illesteva, Spektre, Eyeptizer e ROAV como parte dessa aproximação entre o consumidor premium brasileiro e o design internacional.
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