No dinâmico mercado óptico brasileiro, sobreviver ao tempo é um desafio; prosperar por mais de 60 anos mantendo a mesma relevância é uma raridade . Em um cenário onde a concorrência é acirrada e a tecnologia dita novas regras a cada dia, olhar para as raízes pode ser a resposta para os desafios de gestão mais complexos da atualidade. A história das Óticas Brasil — que hoje soma 48 lojas espalhadas por quatro estados e emprega cerca de 400 profissionais — serve como um verdadeiro estudo de caso sobre o equilíbrio entre a tradição de uma essência familiar e a necessidade urgente de profissionalização .
O negócio, que começou em 1964 pelas mãos do pioneiro Jerônimo José da Motta na Praça do Bandeirante, em Goiânia, traz em seu DNA uma fusão que todo empreendedor do setor busca: o rigor técnico alinhado ao compromisso com a visão humana. Seu Jerônimo, um autodidata apaixonado que chegou a desenvolver equipamentos próprios para laboratórios e a escrever literatura técnica para balconistas, não focava no ganho comercial imediato. Ele plantou o propósito técnico e o altruísmo de ensinar O crescimento de mercado viria logo em seguida, quando a segunda geração — seus filhos — assumiu o negócio trazendo a veia comercial necessária para expandir aquela paixão em uma rede robusta.
O desafio da sucessão: da informalidade ao mérito
Se a transição da primeira para a segunda geração ocorreu de forma orgânica e informal, a chegada da terceira geração exigiu uma mudança drástica de postura. O mercado óptico frequentemente assiste a empresas familiares enfrentarem sérias turbulências no momento da sucessão. Nas Óticas Brasil, a solução para acolher os novos herdeiros sem inflar a operação foi desenhada com base no estudo e no rigor de mercado.
“Para a gente possibilitar hoje uma sucessão da deles (segunda geração) para a nossa, veio muito estudo, muita profissionalização. Veio estruturada. (…) Isso envolveu a gente profissionalizar muito, buscar ajuda de profissionais de mercado.”
— Eberth Motta Junior, coordenador das Óticas Brasil.

Hoje, dos nove netos do fundador, quatro estão ativamente envolvidos no negócio. O grande diferencial que serve de lição para outras empresas familiares do setor é que nenhum deles ocupa uma cadeira pelo sobrenome que carrega.
“O importante é que nesses quatro, eles não estão na posição porque são filhos do dono. Eles estão na posição por mérito, por capacidade. Se você não tiver a capacidade, vai vir uma pessoa de fora.”
— Eberth Motta, representante da segunda geração.
O equilíbrio da governança na prática
Outro ponto que chama a atenção na trajetória da marca é a harmonia na tomada de decisões entre os sócios. Em um mercado onde desentendimentos societários destroem operações tradicionais, a regra estabelecida pela família é simples e baseada na confiança:
“Nós somos três irmãos sócios, mas com uma aproximação muito grande, uma confiança muito grande entre os três. Uma harmonia que foi plantada lá atrás (…). Se dois concordarem, o outro acompanha. Então, acompanha e acompanha achando bom.”
— Eberth Motta.

Atualmente, enquanto a segunda geração atua de forma estratégica no conselho administrativo, a terceira geração assume o “pulso firme” da operação. Um movimento fundamental para dar conta de uma estrutura que, além das dezenas de filiais, conta com braços na indústria e em laboratórios ópticos (como a Unilentes).
O “físico-digital” e o verdadeiro encantamento
Migrar para o e-commerce é uma das maiores dores de cabeça atuais das óticas tradicionais, uma vez que a venda de lentes de grau exige personalização e segurança física. A visão da empresa reflete o sentimento de muitos gestores: o ambiente online não é um negócio à parte, mas uma extensão da cultura física.
“O varejo continua sendo muito desafiador. A gente ainda tem pouquíssimos cases de hoje que tiveram algum nível de sucesso com e-commerce. (…) Acho que a gente não pode dizer que achou o caminho perfeito, a fórmula mágica ainda. Mas estamos fazendo acontecer.”
— Eberth Motta Junior.
Para os líderes da rede, o segredo do sucesso no meio digital não está necessariamente na automação fria de um carrinho de compras, mas sim no uso estratégico de ferramentas como o WhatsApp e o Instagram para humanizar o contato inicial e direcionar o cliente ao balcão. É o conceito do “phygital” — onde o atendimento digital e o físico se conectam para preservar o que eles chamam de “essência do encantamento”.
Lições para o futuro do mercado
Para quem está ingressando ou tentando se consolidar no varejo óptico, a história de 63 anos da marca deixa um conselho prático sobre o que realmente sustenta uma operação no longo prazo. Não basta capital financeiro; é preciso conhecimento técnico e respeito profundo pela saúde visual do cliente
Para a nova geração que assume empresas familiares agora, o recado é ter paciência e construir caminhos atrativos e transparentes, garantindo que o legado técnico do passado continue sendo o motor de inovação do futuro.
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