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Boho chic atravessa décadas e ganha novas leituras no eyewear

Boho chic atravessa décadas e ganha novas leituras no eyewear

Boho chic no eyewear: a nostalgia que virou argumento de venda no balcão

Referências dos anos 1960 e 1970 reaparecem em formatos, cores, lentes e acabamentos, mas chegam às coleções atuais reinterpretadas pelo design contemporâneo

A moda revisita o passado com frequência, mas nem todo retorno significa repetição. No eyewear, referências associadas ao boho chic aparecem em coleções atuais por meio de formas orgânicas, proporções marcantes, cores inspiradas na natureza, lentes em degradê e detalhes que recuperam a atmosfera das décadas de 1960 e 1970 sem necessariamente reproduzir os óculos daquele período.

Essa releitura pode assumir diferentes linguagens conforme a identidade de cada marca. Na avaliação de Carola Nasser, diretora comercial da UAU do Brasil, o boho nunca chegou a desaparecer completamente das coleções das grifes representadas pela empresa. “Na verdade, eu acho que o boho sempre esteve presente nas coleções das nossas marcas. Talvez de maneira discreta ou pontual em algumas temporadas, como Genny, com maxióculos, lentes em degradê e aplicações em pedraria, e Jacquemus, com lentes cosméticas, aviadores coloridos e mini óculos”.

Para a diretora, Jacquemus e Genny dialogam com a estética por caminhos próprios. A primeira associa sua identidade à inspiração no Mediterrâneo, à leveza e às cores da natureza. A segunda trabalha peças expressivas e femininas, com detalhes marcantes. O resultado, segundo ela, está menos na reprodução do boho tradicional e mais na possibilidade de combinar referências do passado com uma linguagem atual.

A Prestige também identifica reflexos claros desse movimento no eyewear. Marco Túlio Pinto Ferreira Lima, comunicador e treinador da empresa, aponta diferentes manifestações entre as grifes de seu portfólio. Saint Laurent recupera designs inspirados nos anos 1970; Gucci trabalha novos conceitos a partir de códigos clássicos de seu acervo; e Chloé ocupa posição de destaque por ter, segundo ele, o boho chic integrado à própria identidade histórica da maison.

O passado aparece, mas não como cópia

Na leitura de Carola, a identidade da grife precisa permanecer reconhecível mesmo quando elementos de outras décadas são incorporados às peças. “As referências não aparecem de maneira literal. Elas são incorporadas ao design de forma sofisticada, resultando em peças que têm personalidade e conexão com a moda atual, sem perder a identidade de cada grife.”

Ela relaciona ao universo boho formatos arredondados ou ovalados inspirados nos anos 1970, tons terrosos, lentes cosméticas, aplicações nas hastes e peças artesanais. Também ressalta que um modelo não precisa reunir todos esses componentes para estabelecer diálogo com o estilo.

Na Prestige, Marco Túlio identifica proporções oversized ou médias, acetatos mais robustos, tons inspirados na natureza, acabamentos abaulados, lentes de maior altura vertical e curvaturas suaves na parte frontal dos óculos. Também observa crescimento das variações do aviador, das pontes duplas e de combinações cromáticas menos convencionais.

No caso da Chloé, ele destaca formatos oversized, geometrias orgânicas com cantos suavizados e uma paleta inspirada na natureza, além de lentes especiais com degradês de até três tons. “O eyewear contemporâneo reinterpreta essa herança ao unir materiais tecnológicos modernos, leveza e alta precisão óptica com as silhuetas e códigos estéticos originais daquela era”, destaca Marco Túlio.

Sob a perspectiva do visagismo, porém, identificar os códigos de uma tendência é apenas uma parte da escolha. Para Rosangela Silva, optometrista, visagista, lunetier e consultora de imagem, com 31 anos de atuação no ramo óptico, o ponto de partida deve ser aquilo que a pessoa deseja transmitir por meio da própria imagem.

No boho chic, ela associa essa comunicação à leveza, naturalidade e liberdade. Curvas, traços menos rígidos, formatos redondos e ovais e até um cat eye mais suave podem traduzir essas características. Na cartela de cores, Rosangela cita tartaruga, caramelo, mel, âmbar, terracota, oliva e outros tons terrosos. Acetatos de aparência natural e texturas que remetem à madeira também podem aproximar os óculos dessa linguagem.

“No boho chic, os óculos podem ter uma aparência mais autoral e menos industrial. Formas orgânicas, cores naturais e detalhes com aspecto artesanal ajudam a transmitir a personalidade e a individualidade de quem os usa”, explica.

Consumidor procura o visual, não necessariamente o nome da tendência

De acordo com Carola, há maior abertura para armações e solares com formatos marcantes e diferenciados e associa esse comportamento ao espaço ocupado pelos óculos na composição da imagem pessoal. Ela comenta que o consumidor tem experimentado mais, embora procure peças que possam ser incorporadas ao cotidiano.

“A tendência aparece mais como uma inspiração contemporânea do boho do que como uma adoção literal da estética dos anos 1960 e 1970”, afirma Carola.

Marco Túlio relata interesse do consumidor brasileiro de eyewear premium e de luxo por referências nostálgicas. A empresa observa esse movimento na reposição dos modelos nos pontos de venda, especialmente solares com lentes em tonalidades suaves e degradês quentes.

Isso não significa, porém, que o cliente entre na óptica pedindo um modelo “boho”. “Ele chega à óptica movido pelo desejo visual em busca de armações marcantes, cores específicas e formatos icônicos que viu em campanhas, celebridades ou redes sociais. A associação com determinado universo estético tende a acontecer durante o atendimento”, esclarece o comunicador.

“O boho consegue conversar com diferentes idades. Os mais jovens tendem a se identificar com shapes diferenciados, variedade de cores e combinações mais ousadas, enquanto consumidores mais experientes podem se aproximar de referências vintage e modelos clássicos, como o aviador”, diz a diretora.

Para Rosangela, a idade, por si só, não deve estabelecer o que uma pessoa pode ou não usar. O que orienta a escolha é a intenção da imagem. Ela exemplifica que uma mulher madura pode usar um boho expressivo e sofisticado, recorrendo a tons como âmbar, oliva e dourado envelhecido e a formatos orgânicos mais estruturados. Se a intenção for transmitir criatividade, é possível aumentar o contraste e explorar formas mais geométricas.

A visagista também faz uma ressalva à associação direta entre formato de rosto e modelo de óculos. Segundo ela, o formato facial não deve ser tomado isoladamente como principal referência. Proporções, escala dos traços, sobrancelhas, distância vértice, ângulo pantoscópico, contraste pessoal, cabelos, personalidade e a mensagem que o cliente pretende comunicar também participam da análise.

“As linhas do rosto ajudam a compreender características da pessoa, mas não determinam a armação. A escolha nasce durante a consultoria, a partir da análise da personalidade do cliente e daquilo que ele deseja comunicar”, afirma.

Informação de moda pode apoiar o atendimento

Se o consumidor nem sempre conhece o nome da tendência que está por trás daquilo que deseja experimentar, a informação de moda ganha outra função dentro da óptica: contextualizar o produto sem aprisioná-lo a um rótulo.

Referências chegam ao público por diferentes meios, como mídia impressa, novelas e redes sociais, mas nem tudo o que aparece em um desfile chegará necessariamente ao ponto de venda. Para a UAU do Brasil, é preciso estabelecer uma intersecção entre tendências e aquilo que o público efetivamente procura.

Marco Túlio também atribui importância ao conhecimento de moda pelo profissional óptico. Segundo ele, compreender as características do boho permite identificar referências nos produtos e incorporá-las à argumentação durante o atendimento sem limitar a peça a uma classificação rígida.

É justamente nesse ponto que, para Rosangela, tendência e identidade pessoal precisam ser conciliadas. Em vez de escolher uma armação simplesmente porque ela pode ser classificada como boho chic, a visagista defende que primeiro seja identificado um modelo capaz de representar a personalidade da pessoa e, a partir daí, sejam incorporados os códigos do estilo.

E essa aproximação não exige necessariamente uma armação de grande impacto. Para quem se identifica com o boho, mas prefere discrição, Rosangela sugere que a referência apareça nos detalhes: uma haste trabalhada, uma combinação sutil de materiais, uma ponte diferenciada, uma linha mais orgânica, uma cor terrosa ou um acabamento de aparência artesanal.


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Renata Barussi

Jornalista com mais de 30 anos de experiência como repórter, redatora para mídias digitais, sites e blogs, e assessora de comunicação e marketing digital. (MTB 24.504)

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