Ardor, sensação de corpo estranho, oscilação visual, hiperemia e até alterações na posição do globo ocular podem parecer sintomas isolados do cansaço cotidiano. Para muitas mulheres, no entanto, esses sinais são manifestações de doenças hormonais, autoimunes e inflamatórias que afetam diretamente a saúde ocular.
Segundo a oftalmologista Dra. Regina Cele (CRM-SP 84485 / RQE 47663), médica especialista em catarata e glaucoma, algumas doenças apresentam incidência significativamente maior no público feminino, especialmente em fases marcadas por oscilações hormonais, como gestação, pré-menopausa e menopausa. Entre elas estão a síndrome do olho seco, a orbitopatia de Graves, associada ao hipertireoidismo, e manifestações oculares de doenças autoimunes, como síndrome de Sjögren, lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide e doença de Behçet. Com o aumento da longevidade feminina, crescem também as condições crônicas relacionadas à idade, como glaucoma e degeneração macular.

A médica explica que as oscilações hormonais exercem influência direta sobre a superfície ocular e o filme lacrimal. “Os estrogênios e andrógenos participam da produção e da estabilidade da lágrima e interferem no funcionamento das glândulas de Meibômio. Por isso, muitas mulheres passam a apresentar ardor, hiperemia, oscilação visual e sensação de corpo estranho, principalmente na transição menopausal.”
De acordo com a Dra. Regina, a síndrome do olho seco é considerada um relevante problema de saúde pública. “Altamente prevalente e frequentemente subdiagnosticada, compromete atividades rotineiras como leitura, direção e uso prolongado de telas, além de interferir na recuperação de cirurgias oftalmológicas. Tornou-se, por isso, uma das principais causas de procura por atendimento especializado”.
As doenças autoimunes também merecem atenção. Mais comuns em mulheres, podem desencadear inflamações oculares importantes, com manifestações como uveíte, esclerite, ceratite e olho seco grave. Dependendo da estrutura acometida, os sintomas incluem dor intensa, fotofobia, hiperemia, baixa de acuidade visual e, nos casos mais graves, risco de comprometimento visual permanente.
Outro quadro frequente é a orbitopatia de Graves, associada ao hipertireoidismo, cujos sinais muitas vezes se tornam perceptíveis antes mesmo de exames laboratoriais. “Proptose, retração palpebral, edema periorbital, irritação ocular, lagoftalmo e diplopia são achados clássicos. Em situações mais graves, pode ocorrer neuropatia óptica compressiva com comprometimento visual significativo”, alerta a oftalmologista.
Foi justamente uma mudança no olhar que levou a estudante de enfermagem Damaris Martin de Sena, 29 anos, moradora de São Paulo, a buscar avaliação médica. Até então, ela desconhecia completamente a doença de Graves. “Comecei a sentir muito calor em 2019. Era um calor excessivo e sem explicação. Cheguei a pensar que fosse algo hormonal, mas ignorei.”

No ano seguinte, os sintomas se intensificaram. “Eu comia muito e não engordava, o calor aumentou ainda mais e comecei a sentir um olho extremamente seco, enquanto o outro estava normal”, lembra Damaris.
Mesmo diante dos sinais, a estudante demorou a procurar atendimento. A percepção veio de forma inesperada, durante uma conversa com o namorado. “Ele parou e disse que meu olho estava estranho. Achei que fosse cansaço, mas o olho começou a saltar cada vez mais”, diz Damaris.
Após a avaliação oftalmológica, veio o diagnóstico e o início do tratamento. “Passei a usar colírio lubrificante o tempo todo porque o olho ficava muito exposto, não fechava direito e ressecava muito. Doía bastante”, ressalta Damaris que também sofreu um grande impacto emocional. “Jamais imaginei que um problema na tireoide pudesse evoluir dessa forma. Foi difícil lidar com a aparência. Minha autoestima caiu muito.”
Com acompanhamento oftalmológico e endocrinológico, ela conseguiu controlar o quadro e reorganizar hábitos. Alimentação, atividade física e vigilância médica passaram a fazer parte da rotina. “O tratamento melhorou minha qualidade de vida e me ensinou a cuidar mais de mim. Hoje não ignoro mais os sinais do corpo.”
A oftalmologista ressalta ainda que a atenção aos sintomas é fundamental também durante a gestação. Alterações como oscilação do grau refracional, intolerância a lentes de contato e olho seco costumam ser transitórias e tendem a regredir no puerpério. Ainda assim, nem toda mudança visual deve ser considerada benigna. “A orientação é nunca banalizar sintomas intensos ou persistentes. Algumas condições podem surgir ou se agravar na gravidez e exigem acompanhamento continuado”, alerta a médica.
O seguimento preventivo permanece a principal estratégia para evitar diagnósticos tardios. Recomenda-se que as mulheres mantenham consultas oftalmológicas regulares ao longo de toda a vida, da infância à terceira idade, com atenção especial a partir dos 40 anos, fase em que surgem alterações fisiológicas da visão, como a presbiopia.
Em pacientes sem sintomas e sem fatores de risco, avaliações anuais ou bienais costumam ser suficientes. “Mulheres com diabetes, doenças autoimunes, histórico familiar de glaucoma, disfunções tireoidianas, miopia elevada ou sintomas frequentes de olho seco devem manter acompanhamento mais próximo”, finaliza Dra. Regina Cele.
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