Durante muito tempo, os homens escolhiam os óculos quase exclusivamente pela necessidade de corrigir a visão. Conforto, leveza e discrição costumavam pesar mais do que qualquer preocupação estética. Esse comportamento, no entanto, vem mudando. Hoje, a escolha da armação também envolve imagem pessoal, estilo de vida e a forma como cada um deseja ser percebido nos diferentes ambientes que frequenta.
A transformação é percebida tanto por quem acompanha a evolução das coleções das grandes marcas quanto por profissionais que atendem diariamente o consumidor nas ópticas. O resultado é um mercado em que a orientação especializada ganha importância e em que as armações deixam de ser apenas um recurso óptico para assumir também um papel de expressão pessoal.
Para o consultor de posicionamento masculino Guilherme Breno, conhecido como “O Alfaiate dos Óculos“, a mudança começa pela maneira como as pessoas enxergam esse acessório.
“Durante anos venderam óculos como um remédio para enxergar. Eu acredito que eles são muito mais uma ferramenta de posicionamento. Eles comunicam identidade, influenciam a percepção e ajudam a construir a imagem que uma pessoa projeta antes mesmo da primeira conversa”, afirma Guilherme.

Segundo ele, o erro mais comum ainda é escolher uma armação considerando apenas a necessidade óptica. “As pessoas normalmente escolhem pensando apenas na necessidade óptica e deixam de lado fatores como estilo de vida, rotina, imagem que desejam transmitir e ocasiões de uso. No fim, acabam levando uma armação que funciona tecnicamente, mas não representa quem elas verdadeiramente são.”
Na avaliação do consultor, a ideia de que existe um modelo ideal apenas em função do formato do rosto simplifica demais uma escolha que envolve outros aspectos. “Antes de olhar para o rosto, procuro entender quem é aquela pessoa, como ela vive, qual imagem deseja construir e como gostaria de ser percebida. Os óculos precisam fazer sentido para a pessoa, não apenas para uma regra estética.”
Essa mudança de comportamento também é percebida pela representante comercial Silvia de Araújo Góes Alves, da Marcolin, que trabalha com a linha masculina da grife Ermenegildo Zegna. Ela observa uma evolução significativa no perfil do consumidor.
“Antes o homem usava óculos porque precisava, mas agora procura peças mais marcantes, com personalidade e estilo”, afirma.
Silvia relata que a preferência pelas cores também mudou. O tradicional preto e marrom perdeu espaço para tons como azul, verde, amarelo e caramelo. Além disso, as armações de acetato ganharam destaque sobre os modelos metálicos.

“A coleção da Zegna, por exemplo, era muito mais tradicional quando comecei. Hoje está mais ousada e mais fashion. Esse reposicionamento refletiu diretamente nas vendas”, observa Silvia e destaca que o público da marca é formado, em sua maioria, por homens acima de 45 anos que buscam uma aparência mais jovem, moderna e atual.
No varejo, essa transformação também é percebida diariamente. Proprietária da Ótica Feres, em Marília (SP), Ana Maria Feres comenta que o consumidor masculino está mais atento ao próprio visual e chega mais informado às lojas.
“Hoje ele se preocupa com sua imagem e procura produtos de boa qualidade que harmonizem com o rosto”, diz.

Segundo Ana Maria, embora exista uma procura maior por modelos e grifes em evidência, a maioria dos homens ainda espera a orientação do profissional para decidir. Os formatos clássicos continuam liderando as vendas, especialmente os modelos redondos, retangulares e as armações de três peças (baugriff).
“Os mais jovens são mais exigentes e normalmente sabem exatamente o que querem. Já os mais velhos costumam ser mais tranquilos durante a escolha”, ressalta.
Para Guilherme Breno, a escolha da armação deve considerar o contexto em que ela será utilizada. Um único modelo pode atender diferentes situações, mas nem sempre será suficiente para representar a mesma pessoa em todos os momentos.
“A maioria dos homens vive pelo menos três contextos diferentes: trabalho, lazer ou esporte. Assim como escolhemos roupas diferentes para cada ocasião, os óculos também podem acompanhar essas mudanças”, diz Guilherme.
Ele também defende que tendências devem ser observadas com equilíbrio. “Prefiro pensar em modelos de design atemporal, materiais de qualidade e cores neutras. Assim, os óculos continuam atuais por muitos anos, enquanto pequenos detalhes podem trazer um toque contemporâneo sem perder longevidade.”
Ao orientar quem pretende comprar os primeiros óculos, o consultor sugere começar por uma pergunta simples. “Como eu quero ser percebido quando estiver usando esses óculos? A partir dessa resposta, fica muito mais fácil encontrar um modelo que una estética, conforto e funcionalidade”, conclui.
A percepção dos especialistas encontra respaldo na experiência de quem usa óculos diariamente. Psicólogo, Rodrigo Coimbra afirma que sua forma de escolher armações mudou com o tempo e que hoje a decisão envolve muito mais do que aparência.
“O que pesa mais é o conforto aliado à estética, nessa ordem. Uma armação pode ser linda, mas, se incomoda no nariz, escorrega ou aperta atrás da orelha, ela vira um problema. O preço importa como um limite, mas não é o fator decisivo quando o produto é durável”, diz Rodrigo.

O psicólogo comenta que os óculos são um dos poucos acessórios que ficam no centro do rosto e, por isso, comunicam algo antes mesmo de você falar. Podem transmitir seriedade, profissionalismo, ousadia ou criatividade. “Minha forma de escolher mudou. Antes eu optava quase sempre pela aparência, sem pensar muito. Hoje procuro observar o peso, o material, o ajuste ao formato do rosto, a qualidade das lentes, a durabilidade e a versatilidade, sempre considerando o custo-benefício.”