Mudanças na tributação do consumo exigem planejamento, revisão de processos e uso estratégico da tecnologia para preservar competitividade e sustentabilidade das ópticas
A reforma tributária deixou de ser um debate abstrato para se tornar um fator concreto de transformação no dia a dia das empresas brasileiras. No varejo óptico, o tema assume contornos ainda mais sensíveis ao envolver produtos ligados à saúde visual, margens pressionadas e um ambiente de forte concorrência. Especialistas, entidades representativas e empresários do setor convergem em um ponto: a mudança exige preparação, planejamento e decisões estratégicas bem fundamentadas.
Para a contadora e conselheira do CRC-SP, Ana Lúcia Corsino Picão, a reforma altera profundamente a lógica da tributação do consumo no país e obriga as empresas a revisarem seus modelos de negócio. “Com a reforma tributária, não é apenas uma mudança na forma de pagar tributo, é uma reforma de negócio”, afirma. Segundo ela, as óticas — em sua maioria enquadradas no Simples Nacional ou no Lucro Presumido — precisarão olhar além das vendas e passar a analisar com atenção toda a cadeia de compras, diante da chamada não cumulatividade ampla, que permite o aproveitamento de créditos tributários. “A realidade de cada empresa será diferente. Por isso, estudo e planejamento são indispensáveis”, destaca.

A substituição de tributos como ICMS, ISS, PIS e Cofins pelo IBS e pela CBS também impacta diretamente a rotina fiscal e contábil. Ana Lúcia observa que a correta emissão do documento fiscal passa a ser o eixo central do novo sistema. “Antes, o foco das óticas estava nos documentos de venda. Agora, será igualmente fundamental garantir que as notas de entrada estejam em conformidade, sob o risco de perder créditos importantes”, explica. Para ela, empresas que contam com sistemas de gestão integrados tendem a enfrentar o período de transição com mais segurança e competitividade.
Se, do ponto de vista técnico, a reforma é vista como uma simplificação no longo prazo, a percepção do setor produtivo é mais cautelosa. A diretora executiva da Abióptica, Ambra Nobre Sinkoc, alerta que o desenho atual da reforma não assegura neutralidade tributária para o varejo óptico. “O setor ainda não enxerga uma garantia de simplificação efetiva. Pelo contrário, a tendência é de aumento da carga tributária, especialmente para produtos de maior valor agregado”, afirma. Segundo ela, há o risco de que itens essenciais à saúde ocular sejam tratados como supérfluos, comprometendo a sustentabilidade das empresas.
Entre as principais preocupações listadas pela entidade estão a elevação da alíquota padrão do IVA, a complexidade no aproveitamento e no ressarcimento de créditos — sobretudo para varejistas — e o chamado efeito cascata ao longo da cadeia, que afeta indústria, importadores, distribuidores e óticas, especialmente aquelas que permanecerem no Simples Nacional. “Se a alíquota subir, teremos aumento de preço ao consumidor, queda nas vendas e perda de competitividade frente à informalidade e às plataformas internacionais”, ressalta Ambra.

Diante desse cenário, a Abióptica mantém diálogo constante com o governo, frentes parlamentares de comércio e indústria, a CNI e grupos de trabalho técnicos específicos da reforma. Entre os pleitos defendidos estão o reconhecimento dos óculos de grau e das lentes oftálmicas como produtos essenciais, a redução de alíquotas para itens de saúde e a preservação da competitividade da indústria nacional.
Na ponta do varejo, a preocupação se traduz em busca por controle e informação. O empresário Orlando Bueno, dono de ótica, destaca que a automação tem papel decisivo na conformidade fiscal. Para ele, sistemas como o B-15 Optidados ajudam a organizar e analisar entradas e saídas, reduzindo riscos diante do crescente cruzamento de dados pelo fisco. “É mais fácil fazer o certo; o errado, além de complexo, deixa um buraco enorme que o fisco tem olhado com mais atenção”, afirma. Orlando também reforça que o lojista deve concentrar sua expertise no atendimento e deixar a complexidade tributária sob responsabilidade de sistemas desenvolvidos por equipes especializadas.

Na avaliação de Ricardo Floriado, CEO da B-15 Optidados, a reforma já está em curso e será vivida em paralelo ao modelo atual durante um longo período de transição. Ele lembra que o primeiro momento funciona como um teste, com alíquotas simbólicas e foco na adaptação dos sistemas e das empresas. “A alíquota vai ser maior, mas o crédito das notas de entrada muda completamente a conta”, explica, ao demonstrar que, em determinados cenários, o imposto efetivamente pago pode ser menor do que no modelo anterior. Para ele, a chave está no planejamento antecipado. “O empresário precisa estudar agora, conversar com o contador e entender o impacto no seu regime e na precificação. Quem deixar para a última hora perde a oportunidade de usar a reforma de forma estratégica”, afirma.

Mais do que um evento pontual, a reforma tributária representa um processo contínuo que exigirá maturidade empresarial. Para o setor óptico, a diferença entre perder competitividade ou ganhar espaço no mercado estará diretamente ligada à qualidade da informação, ao uso de tecnologia adequada e à capacidade de transformar uma mudança estrutural em vantagem estratégica.
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