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Quando a experiência vira limite e expõe o paradoxo silencioso na gestão do varejo óptico

Quando a experiência vira limite e expõe o paradoxo silencioso na gestão do varejo óptico

A experiência no varejo óptico segue valiosa, mas precisa se renovar diante de um consumidor híbrido e atento às inovações tecnológicas.

Trajetórias consolidadas são um ativo importante para qualquer negócio. Mas, em um mercado que muda com velocidade crescente, confiar apenas no passado pode se tornar um risco.

Durante décadas, a experiência foi considerada o principal capital de quem conduz um negócio. No varejo, muitos empreendimentos foram construídos justamente sobre o conhecimento acumulado ao longo de anos de prática, relacionamento com clientes e leitura do mercado.

Nos últimos anos, no entanto, esse ativo tradicional passou a conviver com um paradoxo. Aquilo que durante muito tempo garantiu segurança nas decisões pode, em determinadas circunstâncias, limitar a capacidade de adaptação. Mudanças no comportamento do consumidor, avanço tecnológico e novas ferramentas de gestão transformaram o ambiente empresarial em um cenário muito mais dinâmico do que no passado.

Nesse contexto, confiar exclusivamente na própria vivência deixou de ser suficiente. A experiência continua sendo valiosa, mas precisa dialogar com dados, atualização profissional e abertura a novos modelos de gestão.

Para o cientista da computação Nilton Clésio, com pós-graduação em gestão de pessoas e pós-graduando em neuropsicologia clínica, existe uma explicação comportamental para a tendência de gestores experientes confiarem mais na própria trajetória do que em informações novas.

Segundo ele, trata-se de um movimento natural do funcionamento humano. “A nossa mente tende a buscar uma zona mais confortável. Quando nos apoiamos apenas na experiência acumulada, podemos acabar fechando os olhos para novas possibilidades e variáveis que surgem na economia, como acontece hoje com a inteligência artificial”, afirma.

Clésio explica que essa tendência costuma se consolidar com o tempo. “Quando alguém trabalha há 20 anos em uma mesma atividade, pode passar a acreditar que já domina completamente o cenário. A partir daí surge uma resistência maior a mudanças, porque a experiência traz uma sensação de segurança.”

Essa resistência, segundo ele, também tem relação com a própria estrutura do cérebro. Com o passar dos anos, determinados traços de comportamento tornam-se mais estáveis, o que contribui para a busca por ambientes e decisões que ofereçam menor risco ou desconforto.

Para o especialista, um dos sinais de alerta aparece quando o gestor deixa de sentir estímulo para aprender. “Quando a pessoa não se sente mais desafiada, provocada ou curiosa diante de novas ideias, esse pode ser um indicativo de que a experiência passou a funcionar como zona de conforto.”

Nessas situações, ele aponta o autoconhecimento como ferramenta fundamental. “O autoconhecimento é o pilar para decisões mais alinhadas com quem somos e com o momento que estamos vivendo. Primeiro é preciso compreender as próprias características, qualidades e limitações. Depois, aprender a administrar esses traços e reconhecer perfis diferentes nas outras pessoas”, diz Clésio.

Esse processo, segundo o especialista, amplia a capacidade de liderança e de tomada de decisão. Ele avalia que o maior risco para as empresas no cenário atual não é a falta de experiência, mas o excesso de confiança nela. “Pessoas com menos experiência geralmente têm maior abertura para aprender. Já quem possui uma trajetória consolidada pode encontrar mais dificuldade para aceitar mudanças.”

Se o comportamento do gestor mudou pouco ao longo das décadas, o mesmo não se pode dizer do consumidor. Para o consultor empresarial Luís Fernando Tambara, estrategista de crescimento com lucro especializado em varejo, o cliente atual apresenta características muito diferentes das observadas há poucos anos.

Consultor empresarial, Luís Fernando Tambara

Antes da pandemia de Covid-19, explica ele, o movimento do consumidor parecia seguir uma direção relativamente clara. “Havia uma migração para o ambiente digital, uma busca crescente por conveniência e praticidade. O cliente queria resolver tudo com rapidez, com poucos cliques e pouca interação.”

O período de isolamento acelerou esse processo, mas também revelou outro aspecto do comportamento humano. “Depois de meses de distanciamento, o consumidor voltou para a loja física com um olhar diferente. Ele continua querendo agilidade, mas também busca interação, quer ser ouvido e sentir que está lidando com pessoas, não apenas com sistemas”, afirma Tambara.

De acordo com o consultor, esse novo perfil exige uma combinação entre tecnologia e relacionamento. “Hoje o consumidor é híbrido. Ele pesquisa online, compara preços no celular dentro da própria loja e, muitas vezes, toma a decisão final pela experiência de atendimento e pela confiança. O cliente não entra mais na loja apenas para comprar. Ele entra para viver uma experiência.”

Tambara afirma que esse comportamento é perceptível em segmentos como o óptico. “Estamos lidando com saúde, estética e autoestima. O cliente quer orientação, entender melhor o produto, experimentar e sentir segurança na decisão.”

Para o consultor, decisões baseadas apenas na intuição tornaram-se cada vez mais arriscadas. “Houve um tempo em que o ‘feeling’ do empresário funcionava muito bem. O mercado mudava devagar e os comportamentos eram mais previsíveis. Hoje o cenário é completamente diferente.”

Ele ressalta que as empresas lidam simultaneamente com múltiplas gerações de consumidores, cada uma com expectativas distintas. “A geração Z, por exemplo, busca propósito, transparência, rapidez e integração entre canais.”

Nesse ambiente mais complexo, dados e indicadores tornaram-se indispensáveis. Decidir apenas pela intuição, sem acompanhar margem, ticket médio, conversão ou giro de estoque, é assumir um risco desnecessário.

Tambara ainda ressalta que negócios competitivos hoje integram tecnologia, análise de dados e experiência humana. “A inteligência artificial, por exemplo, já está sendo utilizada para prever demanda, organizar estoques, personalizar ofertas e melhorar o atendimento. Atualização profissional não é custo, é investimento estratégico para sobreviver e crescer.”

Na prática empresarial, o desafio de equilibrar experiência e renovação pode ser observado na trajetória da Oculum Ótica, empresa com 45 anos de atuação. O CEO Thiago Teixeira conta que a história do negócio foi marcada por aprendizados acumulados ao longo do tempo.

Thiago Teixeira, CEO da Oculum Ótica

“Tivemos muitos erros e acertos ao longo da nossa trajetória, que serviram como aprendizado, principalmente para entendermos quais caminhos não deveríamos seguir”, relata.

Ao longo das décadas, a empresa enfrentou diferentes cenários econômicos e políticos. Segundo ele, a estabilidade do negócio sempre esteve associada à visão do fundador, Augusto Teixeira. “O que nos trouxe estabilidade foi a firmeza de propósito dele, sempre mantendo o foco na qualidade dos produtos e serviços oferecidos.”

Durante muitos anos, a gestão seguiu um modelo comum no varejo tradicional. “Meu pai era autodidata e conduzia o negócio principalmente com base na experiência prática adquirida no dia a dia.”

A mudança começou a ocorrer quando a nova geração passou a participar mais ativamente da empresa. Com o crescimento dos filhos, o fundador abriu espaço para novas ideias e debates.

Esse momento marcou o início de um processo de modernização. “Percebemos a necessidade de evoluir a empresa, investindo em sistemas de informática, melhoria da estrutura e profissionalização da equipe.”

Segundo Teixeira, essa transformação não aconteceu de forma abrupta. Foi um processo de melhoria contínua, construído dia após dia. Um dos resultados mais perceptíveis foi a mudança na forma de tomar decisões. A empresa passou a ter mais clareza nos números e a decidir não mais por impulso, mas com base em dados concretos.

Ele também destaca a importância da troca de experiências com outros empresários do setor. “Hoje contamos com uma franqueadora formada por excelentes empreendedores que compartilham conhecimentos. Com essa troca, todos crescem.”

Para o empresário, a experiência continua sendo importante, mas não pode ser o único guia. “Aprender apenas com os próprios erros pode ser um método caro e desgastante. Sempre que possível, é mais inteligente aprender com a experiência dos outros e antecipar soluções”, finaliza.

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Renata Barussi

Jornalista com mais de 30 anos de experiência como repórter, redatora para mídias digitais, sites e blogs, e assessora de comunicação e marketing digital. (MTB 24.504)

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