Mais do que lançamentos e negociações, a mais recente edição da Expo Óptica evidenciou uma transformação mais profunda no setor, a mudança de lógica que reposiciona o mercado para além do produto e aproxima a óptica de um modelo orientado por estratégia, experiência e tecnologia.
Essa percepção aparece de forma consistente entre os próprios protagonistas do evento. Para Daniella Facchinetti, gerente de marketing da JR Adamver, o ambiente da feira revelou uma inflexão clara na forma como as relações comerciais vêm sendo conduzidas. “Foi uma edição marcada por conversas mais estratégicas, troca de insights e fortalecimento de parcerias”.

Segundo ela, o movimento não se limita ao momento da feira. As negociações passam a considerar horizontes mais amplos, com foco no médio e longo prazo, o que exige outro tipo de estrutura e abordagem por parte das empresas. “Acreditamos muito no pós-evento como etapa essencial para transformar conexões em resultados consistentes”, destaca.
Essa mudança também se reflete no comportamento de compra. Ainda de acordo com Daniella, há um consumidor mais atento à curadoria do mix de produtos, em busca de portfólios mais estratégicos e com maior valor agregado, um indicativo de que a decisão deixou de ser apenas funcional para incorporar percepção de marca e posicionamento.
No campo das tendências, a gerente aponta a consolidação de movimentos já em curso. O acetato com design mais marcante segue em evidência, assim como a demanda por produtos funcionais, impulsionada pelo mercado de bem-estar. Entre as cores, o verde ganha destaque, enquanto proporções máximas e mínimas convivem no mesmo espaço. A ponte dupla também aparece como elemento relevante.
Se, por um lado, a feira captou essas mudanças no presente, por outro, elas fazem parte de um processo mais amplo de evolução do setor. É o que observa o empresário Orlando Bueno, com 38 anos de atuação no mercado óptico.

Segundo ele, a transformação é estrutural. “Saímos de um mercado técnico e limitado para um cenário com tecnologia embarcada, digitalização e personalização”, afirma.
Essa transição altera diretamente o papel da óptica. “O consumidor não quer apenas enxergar melhor, ele busca conforto, estética, praticidade e posicionamento”, observa Bueno, ao destacar que o produto passa a carregar também atributos simbólicos e de experiência.
Na avaliação do empresário, essa mudança se desdobra no posicionamento das marcas. “As empresas estão vendendo propósito, identidade e conexão com o cliente”, diz. Ao mesmo tempo, ele aponta um avanço na profissionalização de toda a cadeia, da indústria aos serviços, tornando o mercado mais estratégico e preparado para um ambiente mais exigente.
Ainda assim, o cenário impõe desafios. Bueno cita a concorrência, a pressão por preços e a dificuldade na formação de mão de obra qualificada como pontos de atenção. Nesse contexto, eventos como a feira assumem um papel relevante ao ampliar a visão do empresário. “Você volta com novas ideias, novos fornecedores e uma mentalidade mais estratégica, como o aprimoramento da experiência do cliente e o investimento em tecnologia no atendimento.”
Se a transformação já é perceptível no posicionamento e na estratégia, ela também começa a se materializar em novos modelos de negócio. Para Ivan Cavilha, CEO da Yoface, o setor vive uma mudança mais estrutural, impulsionada pela tecnologia.
A empresa apresentou uma plataforma de customização com escaneamento facial 3D que permite a produção de óculos sob demanda. “Isso muda completamente a lógica da óptica tradicional, saímos do estoque para um modelo mais inteligente e mais rentável”, afirma.

A demonstração da impressão 3D ao vivo gerou forte repercussão entre os visitantes. Segundo ele, os lojistas identificaram ganhos em diferenciação, redução de risco e aumento do valor percebido. Também houve demanda por soluções completas, incluindo treinamento e suporte.
Cavilha observa ainda uma busca crescente por personalização real e valorização de tecnologia aplicada à saúde, acompanhada de uma menor tolerância a produtos genéricos. Outro ponto destacado é o avanço da atenção à saúde visual infantil, que impulsiona soluções específicas para esse público.
Para os próximos passos, a empresa prevê a expansão do modelo de franquias, o fortalecimento do canal B2B e o avanço em projetos que conectam tecnologia e saúde visual. “A Expo Óptica 2026 foi o momento em que essa transformação começou a ficar evidente para o mercado”, disse ainda.
Essa transformação também alcança a gestão das ópticas, especialmente diante de operações cada vez mais complexas e integradas. Para Ricardo Floriano, CEO da B-15 Optidados, o avanço do setor passa pela especialização das soluções e por uma compreensão mais profunda da realidade do varejo óptico.

Segundo ele, a feira reforçou uma mudança perceptível no perfil do empresário do segmento. “Conversamos com pessoas do Brasil todo e nesses papos percebemos que o público está com mais conhecimento e vontade de crescer e se diferenciar”.
Na avaliação do executivo, esse movimento aumenta a demanda por ferramentas mais robustas, capazes de acompanhar as particularidades da operação óptica. Entre os destaques apresentados pela empresa esteve o chamado “DRE de Verdade para Ópticas”, desenvolvido a partir das especificidades do segmento. “Sabemos que a operação de uma óptica é completamente diferente de qualquer outro varejo”, explica. Ele cita como exemplo a dinâmica da venda de lentes, em que o custo pode variar mesmo sem estoque próprio, além dos processos de recebimento parcelado que atravessam diferentes períodos financeiros.
Floriano também observa um avanço na busca por integração entre gestão, vendas e tecnologia aplicada ao atendimento. “As ópticas, desde o pequeno delivery até as redes, precisam de uma solução robusta e especializada, para atender o cliente de uma forma encantadora, diferenciada e com resultado”, diz.
Para ele, a modernização do setor não depende apenas da adoção de sistemas, mas de uma mudança de cultura. “Não queremos apenas usuários de sistema, queremos que as ópticas entendam que têm um parceiro de longa jornada, que vai estar sempre ao seu lado, com tecnologia sim, mas também com informações.” Segundo o executivo, a empresa passou a adotar implantações individualizadas justamente para fortalecer a profissionalização da gestão óptica.
Ao reunir essas diferentes leituras, o que se desenha é um setor em transição, menos orientado por volume e mais por valor, menos dependente de estoque e mais conectado à personalização, menos focado na venda pontual e mais comprometido com experiência e relacionamento. Uma mudança que não se limita ao ambiente da feira, mas que encontra ali um retrato claro do que já está em curso.
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